Estudos de Jotería
Pontos principais
- Os Estudos de Jotería focam nas experiências de pessoas queer e transgênero Chicanx e Latinx.
- O termo 'jotería' é uma re-apropriação do pejorativo espanhol 'joto'.
- Gloria Anzaldúa é uma figura central do campo, especialmente através de sua obra 'Borderlands/La Frontera'.
- A AJAAS (Association for Jotería Arts, Activism, and Scholarship) é a principal organização profissional que institucionalizou o campo em 2011.
Os Estudos de Jotería constituem um campo acadêmico interdisciplinar centrado nas experiências, epistemologias e produções culturais de pessoas queer e transgênero Chicanx e Latinx. Com raízes profundas no pensamento feminista Chicana, nos estudos étnicos e na crítica queer de cor, este campo emergiu de décadas de ativismo, prática artística e produção acadêmica, consolidando-se formalmente no início da década de 2010 com a fundação da Association for Jotería Arts, Activism, and Scholarship (AJAAS).
O campo deriva seu nome de jotería, termo originado do pejorativo em espanhol joto, que foi ressignificado pelas comunidades queer Chicanx e Latinx como uma categoria política e de identidade afirmativa.
Etimologia e Terminologia
O termo joto/a é um pejorativo coloquial da língua espanhola utilizado no México e em comunidades mexicano-chicanas nos Estados Unidos. Historicamente, foi aplicado como um insulto a homens gays e pessoas com não conformidade de gênero, juntamente com outros termos como puto/a e maricón.
A origem exata da palavra é incerta, havendo diversas teorias etimológicas:
- Nahuatl: Algumas propostas sugerem a derivação da palavra nahuatl xôtoj/xoto (significando homossexual).
- Alfabeto: Outras sugerem uma conexão com a letra "J" (jota) do alfabeto espanhol.
- Sistema Prisional: O historiador Robert Buffington propôs que o termo derivaria da "Ala J" (Cell Block J) da penitenciária federal de Lecumberri, na Cidade do México, onde homens efeminados eram segregados desde o início do século XX. No entanto, evidências documentais mostram o uso do termo em fontes escritas já em 1885, precedendo a existência da prisão.
O termo emergiu no espanhol mexicano durante o final do século XIX, em um contexto de criminalização e condenação social de relações homoafetivas sob a era de Porfirio Díaz (1876–1911). A jotería, como conceito político e analítico, funciona de forma análoga ao termo queer em inglês, mas mantém distinções culturais e linguísticas. Acadêmicos argumentam que a jotería não pode ser reduzida a uma tradução de "LGBT", pois expressa a existência do indivíduo dentro de um tecido social mais amplo que envolve família, trabalho, comunidade e ativismo.
Genealogia Intelectual e Antecedentes
Feminismo Chicana e Gloria Anzaldúa
As raízes intelectuais dos Estudos de Jotería remontam aos movimentos feministas Chicanas e feministas do "terceiro mundo" das décadas de 1960, 1970 e 1980. O campo foi moldado por coletivos de feministas queer Chicanas e feministas transgênero que lideraram a conscientização e a organização política inicial.
A obra de Gloria Anzaldúa, especialmente Borderlands/La Frontera: The New Mestiza (1987), é considerada um texto fundamental. Seu apelo para "ouvir o que sua jotería está dizendo" é citado como uma demanda explícita para centralizar as epistemologias de jotería no pensamento Chicanx. Os conceitos de Anzaldúa sobre as borderlands (terras fronteiriças), nepantla e conocimiento forneceram o vocabulário conceitual para o campo. Além disso, a colaboração de Anzaldúa com Cherríe Moraga na antologia This Bridge Called My Back (1981) estabeleceu as condições políticas para a emergência da disciplina.
Produção Acadêmica Inicial
No início da década de 1990, coletivos começaram a abordar a marginalização de pessoas queer tanto nos espaços do movimento Chicano quanto em organizações LGBTQ+ predominantemente brancas. Ensaios seminais, como "Speaking from the Margin" (1993) de Emma Pérez e "Chicano Men: A Cartography of Homosexual Identity and Behavior" (1991) de Tomás Almaguer, são reconhecidos como parte da linhagem intelectual dos Estudos de Jotería, mesmo quando não utilizavam explicitamente esse termo na época.
Institucionalização do Campo
O Joto Caucus e a NACCS
A partir do início dos anos 1990, homens gays dentro da National Association for Chicana and Chicano Studies (NACCS) organizaram-se informalmente. Em 1993, adotaram formalmente o nome Joto Caucus, criando um espaço institucional para a pesquisa e organização queer Chicanx. Raúl Coronado é creditado por convocar a primeira reunião de "chicanos jotos" em uma conferência da NACCS.
AJAAS
A Association for Jotería Arts, Activism, and Scholarship (AJAAS), fundada em 2011, tornou-se a principal organização profissional do campo. Com sua conferência inaugural em 2012 na Universidade do Novo México, a AJAAS consolidou a transição de práticas ativistas e artísticas para um campo acadêmico formalmente institucionalizado.
Perguntas frequentes
O que são os Estudos de Jotería?
É um campo interdisciplinar que estuda as identidades, produções culturais e epistemologias de pessoas queer e transgênero de origem Chicanx e Latinx.
Qual a diferença entre 'jotería' e 'queer'?
Embora análogos, a jotería é cultural e linguisticamente distinta, integrando a sexualidade e o gênero dentro de contextos de família, trabalho e comunidade, em vez de isolá-los como categorias identitárias puras.
Qual a importância de Gloria Anzaldúa para este campo?
Anzaldúa forneceu a base teórica e conceitual, especialmente através de conceitos como 'borderlands' e 'conocimiento', incentivando a centralização da perspectiva queer Chicana no pensamento acadêmico.
Como o termo 'joto' foi ressignificado?
Originalmente um insulto para homens gays e efeminados no México e nos EUA, o termo foi reapropriado por comunidades LGBTQ+ Chicanx e Latinx como uma identidade política afirmativa.