Filosofia

Wilfrid Sellars: O Pensamento e a Crítica ao Mito do Dado

Pontos principais

  • Crítico do fundacionalismo epistemológico através do conceito de 'Mito do Dado'.
  • Propôs a distinção entre a 'Imagem Manifesta' (senso comum) e a 'Imagem Científica' (ciência física) do mundo.
  • Introduziu a noção de 'Espaço de Razões' para diferenciar a justificativa epistêmica da causalidade física.
  • Sintetizou influências do pragmatismo, positivismo lógico e idealismo kantiano.

Wilfrid Stalker Sellars (20 de maio de 1912 – 2 de julho de 1989) foi um influente filósofo americano, reconhecido como um dos principais desenvolvedores do realismo científico e do realismo perceptual crítico. Sua obra é creditada por ter transformado tanto o conteúdo quanto o método da filosofia nos Estados Unidos, exercendo um impacto profundo em diversas áreas da filosofia analítica da segunda metade do século XX, incluindo a epistemologia, a filosofia da linguagem, a filosofia da mente, a filosofia da percepção e a filosofia da ciência.

Retrato de Wilfrid Sellars
Wilfrid Sellars, filósofo americano.

Vida e Trajetória Acadêmica

Filho do filósofo canadense-americano Roy Wood Sellars, um expoente do naturalismo filosófico no início do século XX, Wilfrid Sellars teve uma formação acadêmica diversificada. Graduou-se pela Universidade de Michigan (BA, 1933), estudou na Universidade de Buffalo e no Oriel College, em Oxford (1934–1937), onde foi bolsista Rhodes, obtendo seu mestrado (MA) em 1940.

Durante a Segunda Guerra Mundial, Sellars atuou na inteligência militar. Sua carreira docente percorreu instituições como a Universidade de Iowa (1938–1946), a Universidade de Minnesota (1947–1958) e a Universidade de Yale (1958–1963). De 1963 até sua morte, lecionou na Universidade de Pittsburgh. Em 1977, presidiu a Metaphysical Society of America e foi um dos fundadores do periódico Philosophical Studies.

Contribuições Filosóficas Centrais

Sellars é amplamente reconhecido por sua tentativa de reconciliar as formas intuitivas de descrever o mundo — tanto as do senso comum quanto as da filosofia tradicional — com uma visão naturalista e científica da realidade. Ele sintetizou elementos do pragmatismo americano, da filosofia analítica britânica e americana, e do positivismo lógico austro-germânico, mantendo também um diálogo constante com o idealismo alemão, especialmente em sua obra Science and Metaphysics: Variations on Kantian Themes (1968).

O Espaço de Razões

Sellars cunhou a expressão "espaço de razões" para descrever a rede conceitual e comportamental da linguagem que os seres humanos utilizam para navegar inteligentemente no mundo. Este conceito estabelece que o discurso sobre razões, justificativa epistêmica e intenção não é equivalente, nem pode ser mapeado diretamente, ao discurso sobre causas e efeitos utilizado pelas ciências físicas.

O Mito do Dado

Em sua obra mais célebre, Empiricism and the Philosophy of Mind (1956), Sellars apresenta a crítica ao que chamou de "Mito do Dado". Ele contesta a visão de que o conhecimento perceptual possa ser independente das capacidades conceituais envolvidas na percepção. Para Sellars, a ideia de que existem "dados sensoriais" puros que servem como base justificada para o conhecimento, sem a necessidade de conceitos, é um equívoco epistemológico.

Nesta obra, ele utiliza a parábola do "Mito de Jones" para defender a possibilidade de uma visão de mundo behaviorista estrita, demonstrando como pensamentos e experiências subjetivas podem ser atribuídos a indivíduos dentro de um modelo científico, utilizando a ficção de uma tribo chamada "Ryleanos" para dialogar com as ideias de Gilbert Ryle.

Imagens do Mundo: Manifesta e Científica

No ensaio Philosophy and the Scientific Image of Man (1962), Sellars propõe a distinção entre duas formas de compreender a realidade:

  • Imagem Manifesta: Compreende o mundo em termos de intenções, pensamentos, aparências e agentes morais. É a visão do senso comum e da experiência cotidiana.
  • Imagem Científica: Descreve o mundo através das teorias das ciências físicas, focando em entidades como partículas, forças e causalidade física.

Sellars argumenta que, embora essas duas imagens possam entrar em conflito — por exemplo, a imagem manifesta inclui reivindicações morais que a imagem científica ignora —, o objetivo da filosofia é compreender como essas diferentes perspectivas "se encaixam" (hang together) no sentido mais amplo possível.

Empirismo Kantiano

No artigo The Language of Theories (1961), Sellars introduz o conceito de empirismo kantiano, distinguindo entre afirmações cuja revisão exige a modificação do sistema de conceitos (verdades a priori relativas ao quadro conceitual) e afirmações que podem ser revisadas com base em observações feitas dentro de um sistema de conceitos fixo.

Perguntas frequentes

O que é o 'Mito do Dado' segundo Wilfrid Sellars?

O 'Mito do Dado' é a crítica de Sellars à ideia de que a percepção sensorial pura (dados sensoriais) possa fornecer justificativa epistêmica para o conhecimento sem a necessidade de conceitos. Ele argumenta que o conhecimento requer a capacidade de situar a percepção dentro de um espaço de razões.

Qual a diferença entre a Imagem Manifesta e a Imagem Científica?

A Imagem Manifesta é a visão do mundo baseada no senso comum, intenções e agência humana. A Imagem Científica é a descrição do mundo baseada nas teorias da física e ciências naturais, tratando a realidade em termos de partículas e forças.

O que Sellars quer dizer com 'Espaço de Razões'?

O 'Espaço de Razões' refere-se ao domínio da justificação lógica e conceitual. É a rede de linguagem e normas que permite aos humanos dar e pedir razões para suas crenças, distinguindo-se do domínio da causalidade física (onde as coisas acontecem por causa de leis naturais).