Jem Bendell e a Teoria da Adaptação Profunda
Pontos principais
- Criador do conceito de 'Adaptação Profunda' (Deep Adaptation) em 2018.
- Professor emérito da Universidade de Cumbria e fundador do Instituto de Liderança e Sustentabilidade (IFLAS).
- Autor de 'Healing Capitalism', onde propõe a responsabilidade de capital para proprietários de terras e empresas.
- Atuou no WWF UK e colaborou com agências das Nações Unidas em relatórios sobre sociedade civil e negócios.
Jem Bendell é um professor emérito de liderança em sustentabilidade da Universidade de Cumbria, no Reino Unido. Ele ganhou notoriedade global ao formular, em 2018, o conceito de Adaptação Profunda (Deep Adaptation), uma abordagem voltada para indivíduos e comunidades que antecipam ou já enfrentam as consequências severas e sistêmicas das mudanças climáticas.

Trajetória Acadêmica e Profissional
Bendell graduou-se em Geografia pela Universidade de Cambridge em 1995. Iniciou sua carreira no World Wide Fund for Nature (WWF) do Reino Unido, onde contribuiu para o desenvolvimento do Conselho de Manejo Florestal (Forest Stewardship Council) e do Conselho de Manejo Marinho (Marine Stewardship Council). Durante esse período, especializou-se nas relações entre organizações não governamentais (ONGs) e o setor corporativo, alertando para as disparidades de poder e a tendência de as agendas empresariais prevalecerem sobre as de entidades sem fins lucrativos.
Posteriormente, obteve seu doutorado pela Universidade de Bristol. Em 2006, enquanto trabalhava novamente com o WWF UK, publicou o relatório Deeper Luxury: Quality and Style When the World Matters, que analisava o desempenho socioambiental de marcas de luxo, argumentando que tais empresas não atendiam às expectativas dos consumidores em termos de responsabilidade social e ambiental.
Atuação Institucional e Consultoria
Bendell envolveu-se no movimento antiglobalização e redigiu um relatório para as Nações Unidas sobre os conflitos entre o setor empresarial e a sociedade civil. Fundou a Lifeworth, empresa de serviços profissionais focada em agências da ONU, e atuou como professor associado de gestão na Griffith Business School.
Em 2012, ingressou na Universidade de Cumbria, onde fundou o Instituto de Liderança e Sustentabilidade (IFLAS). Devido ao seu trabalho, foi nomeado "Young Global Leader" pelo Fórum Econômico Mundial, rede a qual ele posteriormente criticou por considerá-la elitista e neoliberal.
Contribuições Teóricas e Publicações
Healing Capitalism
Em seu livro de 2014, Healing Capitalism, Bendell propõe uma redefinição do direito de propriedade privada. Ele sugere a implementação de uma "responsabilidade de capital", na qual os proprietários e fiduciários teriam o dever demonstrável de prestar contas a qualquer pessoa diretamente afetada por suas propriedades, forçando acionistas a priorizar a responsabilidade perante as partes interessadas (stakeholders) tanto quanto priorizam dividendos ou o preço das ações.
Adaptação Profunda (Deep Adaptation)
Em julho de 2018, Bendell publicou o ensaio "Deep Adaptation: A Map for Navigating Climate Tragedy". O texto propõe que, diante da possibilidade de um colapso societal inevitável causado pelas mudanças climáticas, a humanidade deve transitar de estratégias de mitigação (tentar impedir o aquecimento) para estratégias de adaptação profunda, focadas na resiliência comunitária e na aceitação psicológica da tragédia climática.
A publicação gerou controvérsias no meio científico. Enquanto alguns pesquisadores concordavam com a premissa do colapso societal a longo prazo, outros, como o climatologista Michael E. Mann, refutaram a ideia de que houvesse evidências científicas credíveis de um colapso iminente e inevitável. Em 2020, Bendell revisou seu artigo para esclarecer que a inevitabilidade do colapso era sua conclusão pessoal e não um fato científico estabelecido, destacando que a percepção de risco muitas vezes depende de narrativas psicológicas e não apenas de dados lógicos.
Atividades Recentes
Na conferência COP27, realizada no Egito em 2022, Bendell alertou os delegados sobre dois riscos principais: um aumento súbito nas temperaturas globais devido à redução de aerossóis e o surgimento de um novo tipo de ceticismo climático, que interpretaria qualquer ação governamental como motivada por autoritarismo. Como resposta, ele propõe a combinação da Adaptação Profunda com o ecolibertarianismo.
Em 2023, Bendell mudou-se para Bali, na Indonésia, onde dedica-se ao desenvolvimento de uma escola de agricultura regenerativa.
Perguntas frequentes
O que é a Adaptação Profunda proposta por Jem Bendell?
É uma abordagem psicológica e comunitária para lidar com a possibilidade de um colapso societal causado pelas mudanças climáticas, sugerindo que as pessoas aceitem a tragédia climática para desenvolver respostas mais resilientes e realistas.
Qual a diferença entre mitigação e adaptação profunda?
A mitigação foca em reduzir a emissão de gases de efeito estufa para evitar o aquecimento global. A adaptação profunda assume que certas mudanças catastróficas já são inevitáveis e foca em como viver e organizar a sociedade diante desse cenário.
Qual a crítica de Michael E. Mann ao trabalho de Bendell?
O climatologista Michael E. Mann afirmou que não existem evidências científicas credíveis de que a humanidade enfrente um colapso societal inevitável no curto prazo, contestando a base científica do ensaio original de Bendell.