Incursão de Guelph
Pontos principais
- A incursão ocorreu em 7 de junho de 1918 no Noviciado de St. Stanislaus, em Guelph, Ontário.
- O incidente foi motivado por divergências sobre a isenção de seminaristas católicos da Lei de Serviço Militar de 1917.
- A comissão real de 1919 concluiu que os noviços estavam isentos e que a operação militar foi ilegal e mal conduzida.
A Incursão de Guelph foi um incidente ocorrido em 7 de junho de 1918 no Noviciado de St. Stanislaus, em Guelph, Ontário. O evento envolveu a tentativa de militares canadenses de prender estudantes jesuítas para cumprimento da Lei de Serviço Militar, resultando em tensões políticas e religiosas que culminaram na nomeação de uma comissão real pelo Parlamento do Canadá em abril de 1919.
Contexto Histórico e a Lei de Serviço Militar
Para compensar as baixas sofridas durante a Primeira Guerra Mundial, o governo canadense aprovou a Lei de Serviço Militar em 1917. A lei entrou em vigor em 1º de janeiro de 1918 e gerou protestos significativos, especialmente no Quebec. Em abril de 1918, a legislação foi alterada para restringir a maioria das isenções, mantendo apenas aquelas destinadas ao clero, incluindo membros de ordens exclusivamente religiosas e ministros de todas as denominações religiosas existentes no Canadá na data da aprovação da lei.
Surgiu, contudo, uma ambiguidade jurídica sobre o momento em que um estudante de teologia passava a ser considerado clero. Enquanto estudantes protestantes eram geralmente reconhecidos como clero apenas ao final de sua formação, os seminaristas católicos eram frequentemente considerados membros do clero desde o início de seu treinamento. Charles Doherty, então Ministro da Justiça, interpretava que os estudantes católicos destinados ao sacerdócio estavam isentos do serviço militar.
O Conflito de Jurisdição
Até maio de 1918, a aplicação da Lei de Serviço Militar era responsabilidade da polícia, sob a supervisão do Ministério da Justiça. No entanto, em maio de 1918, essa responsabilidade foi transferida para a polícia militar, subordinada ao Departamento de Milícia e Defesa. Diversos oficiais militares, incluindo o General S. C. Mewburn e o Coronel Godson-Godson, discordavam da interpretação de Doherty ou não tinham conhecimento dela, o que criou o cenário para a incursão no noviciado.
A Incursão no Noviciado de St. Stanislaus
A operação ocorreu na noite de 7 de junho de 1918. Uma unidade liderada pelo Capitão A. C. Macauley, vestindo roupas civis, cercou o Noviciado de St. Stanislaus. Macauley e o Inspetor Menard exigiram que o reitor da instituição, Padre Bourque, apresentasse todos os noviços em cinco minutos.
O Padre Bourque solicitou a assistência do Padre William Hingston, um capelão do exército com patente de capitão. Hingston, trajando uniforme militar completo, questionou a documentação de Macauley. Embora o capitão tenha apresentado um documento mencionando a necessidade de autorização, ele se recusou a exibir a autorização formal para a operação.
Apesar da resistência, três noviços foram detidos, incluindo Marcus Doherty, filho do Ministro da Justiça, Charles Doherty. Após o interrogatório, Marcus conseguiu telefonar para seu pai. Ao falar com o Ministro da Justiça, o Capitão Macauley foi informado de que sua ação era ilegal e recebeu ordens para retirar-se imediatamente e relatar o ocorrido, com a instrução de que a notícia não fosse divulgada à imprensa.
Repercussões e a Comissão Real
O incidente permaneceu em sigilo até 19 de junho de 1918, quando o jornal Toronto Star publicou a história. A notícia desencadeou uma onda de reportagens e reações sectárias. Em agosto de 1918, membros da Associação Ministerial de Guelph, como M. B. Christie e Kennedy Palmer, utilizaram a situação para exortar a Ordem da Laranja (uma organização protestante) a resistir ao que descreviam como a "ameaça da Igreja Católica Romana", sugerindo que a Igreja exercia influência indevida sobre o governo.
Em 7 de abril de 1919, foi apresentada uma moção no Parlamento solicitando a criação de uma comissão real para investigar as acusações de conduta imprópria e interferência do Ministro da Justiça na aplicação da lei. O governo de Robert Borden organizou a comissão, embora o Juiz Presidente Louis Henry Davies e o Juiz Francis Alexander Anglin tenham recusado a nomeação para evitar envolvimento em uma controvérsia política e religiosa.
Conclusões da Comissão
O relatório da comissão real, publicado em 3 de novembro de 1919, concluiu que:
- Não havia fundamento para as acusações contra Charles Doherty ou o Departamento da Justiça.
- Todos os noviços jesuítas estavam, de fato, isentos da Lei de Serviço Militar.
- O Capitão Macauley cometeu três erros graves: não apresentou autoridade escrita no local, conduziu a operação trajando roupas civis e agiu de forma arrogante.
Perguntas frequentes
O que foi a Incursão de Guelph?
Foi uma operação militar ilegal realizada em junho de 1918 no Noviciado de St. Stanislaus, em Guelph, Ontário, para prender estudantes jesuítas que supostamente estariam evadindo o serviço militar obrigatório durante a Primeira Guerra Mundial.
Por que houve a incursão?
Houve um conflito de interpretação da Lei de Serviço Militar: o Ministério da Justiça considerava os noviços jesuítas isentos, mas o Departamento de Milícia e Defesa, que assumiu a fiscalização, não concordava ou desconhecia tal isenção.
Qual foi o resultado da comissão real?
A comissão real de 1919 exonerou o Ministro da Justiça, Charles Doherty, de qualquer irregularidade e confirmou que os noviços jesuítas eram isentos do serviço militar, criticando a conduta do Capitão Macauley.
Quem foi Marcus Doherty?
Marcus Doherty era um noviço jesuíta e filho do então Ministro da Justiça do Canadá, Charles Doherty, tendo sido um dos três detidos durante a incursão.