Controvérsia sobre a Retenção do Vírus da Varíola
Pontos principais
- A varíola foi declarada erradicada pela OMS em 1980.
- As únicas amostras oficiais de vírus da varíola vivo são mantidas nos EUA (CDC) e na Rússia (Centro VECTOR).
- O debate centra-se no risco de escape acidental versus a necessidade de pesquisa para contramedidas biológicas.
- Amostras não oficiais foram descobertas acidentalmente em laboratórios nos EUA e na África do Sul após a data de erradicação.
A controvérsia sobre a retenção do vírus da varíola refere-se ao debate prolongado entre cientistas, autoridades de saúde e governos sobre o destino das últimas amostras conhecidas do vírus Variola, agente causador da varíola. Desde que a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou a erradicação global da doença em 1980, discute-se se as amostras remanescentes, mantidas em laboratórios de alta segurança nos Estados Unidos e na Rússia, devem ser irreversivelmente destruídas ou preservadas para fins de pesquisa.
Contexto Histórico e Repositórios Oficiais
Em 1981, apenas quatro países possuíam centros colaboradores da OMS ou trabalhavam ativamente com o vírus da varíola: Estados Unidos, Reino Unido, União Soviética e África do Sul. Após um surto acidental em 1978 em Birmingham, no Reino Unido, que resultou na morte da fotógrafa médica Janet Parker, houve um movimento global para restringir a posse do vírus. Como resultado, todos os estoques conhecidos foram destruídos ou transferidos para dois laboratórios de nível de biossegurança 4 (BSL-4) autorizados pela OMS: o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) nos Estados Unidos e o Centro Estatal de Virologia e Biotecnologia VECTOR na Rússia (anteriormente União Soviética).
O Debate: Destruição vs. Retenção
O debate divide-se fundamentalmente em duas correntes de pensamento:
Argumentos a Favor da Destruição
Defensores da destruição total, incluindo veteranos do Programa de Erradicação da Varíola da OMS e especialistas como D. A. Henderson, argumentam que:
- Risco de Escape: A manutenção de amostras vivas representa um risco constante de acidente laboratorial ou roubo, podendo desencadear um novo surto em uma população global sem imunidade.
- Falta de Justificativa: Argumentam que não há mais finalidades de saúde pública que justifiquem a retenção do vírus, visto que a erradicação já foi alcançada.
- Inutilidade para Resposta a Surtos: A destruição dos estoques não impediria a resposta a um eventual novo surto, pois a infraestrutura de vacinação e diagnóstico poderia ser reativada.
Argumentos a Favor da Retenção
Opositores da destruição, incluindo cientistas do Exército dos EUA como Peter Jahrling, sustentam que:
- Pesquisa de Contramedidas: As amostras são essenciais para o desenvolvimento de novas vacinas, fármacos antivirais e testes diagnósticos mais precisos.
- Risco de Amostras Não Oficiais: Existe a preocupação de que estoques não declarados ou esquecidos existam em outros locais do mundo, tornando a destruição das amostras oficiais um ato meramente simbólico e perigoso.
- Sintetização Artificial: Com a disponibilidade de informações genômicas online, a tecnologia atual permite a síntese artificial do vírus em laboratório, o que tornaria a destruição das amostras físicas irrelevante diante da ameaça de bioterrorismo.
Cronologia de Recomendações da OMS
A OMS recomendou a destruição de todas as amostras de varíola em 1986, estabelecendo prazos iniciais para dezembro de 1993. No entanto, esses prazos foram sucessivamente adiados para 1999 e 2002. Devido à resistência dos Estados Unidos e da Rússia, a Assembleia Mundial da Saúde concordou, em 2002, com a retenção temporária dos estoques para propósitos específicos de pesquisa.
Incidentes de Descobertas Posteriores
Apesar do controle rigoroso, amostras de varíola foram descobertas em locais não autorizados após 1984:
- África do Sul (2013): Fragmentos de DNA clonados de variola major foram encontrados em um laboratório sul-africano e destruídos sob supervisão da OMS em 2014.
- Estados Unidos (2014): Viais rotulados como "varíola" foram descobertos em uma sala de armazenamento não utilizada em um laboratório da FDA no campus do NIH em Bethesda. Testes de PCR confirmaram a presença de variola major viável, que foi posteriormente transferida para o CDC em Atlanta para destruição.
Perguntas frequentes
Por que o vírus da varíola ainda é mantido em laboratórios?
Os defensores da retenção argumentam que as amostras são necessárias para desenvolver novas vacinas e antivirais, além de se preocupar com a possibilidade de o vírus existir em estoques não declarados ou ser sintetizado artificialmente.
Quais são os riscos de manter essas amostras?
O principal risco é a possibilidade de um escape acidental do laboratório ou roubo, o que poderia causar um surto global em uma população que não é mais vacinada contra a doença.
Onde estão localizados os repositórios oficiais de varíola?
As amostras oficiais são mantidas no Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) nos Estados Unidos e no Centro Estatal de Virologia e Biotecnologia VECTOR na Rússia.
A OMS já recomendou a destruição do vírus?
Sim, a OMS recomendou a destruição total das amostras em 1986 e definiu vários prazos, mas a retenção foi mantida devido à insistência dos EUA e da Rússia em continuar pesquisas essenciais.